Alerto os alunos no primeiro dia de aula da minha disciplina História do Cinema Mundial: a história do cinema merece um curso de graduação inteiro, teremos apenas um recorte, os principais movimentos, diretores, filmes…. É a mesma proposta do livro A história do cinema para quem tem pressa, do crítico e professor Celso Sabadin – autor do ótimo Vocês ainda não ouviram nada, a barulhenta história do cinema mudo.
O autor adverte os leitores: “Como o próprio nome já diz, A história do Cinema para Quem Tem Pressa propõe uma abordagem histórica, rápida e objetiva sobre o tema. Usando uma linguagem cinematográfica, trata-se mais de uma visão panorâmica, um travelling, do que um estudo em close.”
Os capítulos do livro seguem a linha cronológica, começando pela pré-história das imagens em movimento e os pioneiros. Na primeira parte, destaco o capítulo sobre o impressionismo francês, Sabadin dedica análise mais apurada sobre o movimento marcado pelas obras de diretores como Abel Gance, Louis Delluc e Jean Epstein.
A partir do nascimento do cinema sonoro, o livro versa sobre os principais movimentos: neo-realismo italiano, nouvelle-vague, nova hollywood, passando ainda pela ascensão e decadência do sistema de estúdios americano. O cinema nacional é contemplado com panorama histórico sobre o cinema novo e um subtítulo no capítulo final sobre a retomada do cinema brasileiro.
Livro de leitura rápida, com listagem de importantes filmografias, abre perspectivas para futuras pesquisas, imersão em um ou outro movimento de preferência para a leitura de obras mais densas. Como sugestão, ainda o melhor livro sobre história do cinema, um clássico: História do cinema mundial, de Georges Sadoul, publicado nos anos 60, três volumes com a mais completa retrospectiva da sétima arte até aquele momento.
A história do cinema para quem tem pressa. Dos irmãos Lumière ao século 21 em 200 páginas! Celso Sabadin. Rio de Janeiro: Valentina, 2018.
“É um Primitivo. Italiano. Tem aroma intenso, frutado com toques de ameixa, especiarias e baunilha.” “Eu não entendo nada de vinhos. Gosto, apenas.” Enquanto virava lentamente o líquido na taça de Camila, Fernando pensou em mudar de assunto, disfarçar também sua ignorância sobre o assunto. Acabou revelando. “Eu também não. Foi indicação do vendedor. As características decorei da Internet. Na verdade, entrei pela primeira vez em uma casa de vinhos. Para impressionar você.” Camila sorriu e levou a taça aos lábios. Por um momento, vermelhos se confundiram. Depois, juntou sua boca ácida à de Fernando.
Dois anos antes, Fernando estava sentado em uma pizzaria com a mulher e um grupo de amigos. Ele nem sabia o que fazia ali, ficou calado a maior parte do tempo, o dedo dando voltas na borda do copo de chopp. Às vezes sorria, fazia um comentário qualquer, se voltava para o copo. Despertava com a gargalhada da mulher, alta, estridente. Nos primeiros anos de casado, ele se divertia com esse rir espontâneo. Gostava da risada aberta, sem pudor. Aos poucos, a admiração se transformou em indiferença e, em vários momentos, irritação.
Notou isso pela primeira vez em uma sexta-feira à noite. Assistiam a um DVD, uma leve comédia romântica. Fernando não achou graça no filme, mas sua mulher ria, ria. Uma raiva repentina tomou conta dele, temendo mostrar irritação, inventou uma desculpa qualquer e saiu da sala. Entrou no chuveiro, deixou a água morna cair sobre o corpo por quase dez minutos. Seus ouvidos ainda escutavam as risadas na sala. Só voltou a assistir ao filme no início da madrugada, quando a mulher já dormia. Deixou o som do home-teather baixo, quase um sussurro. Gostou do filme, surpreendeu-se rindo sozinho na sala.
Sentiu um aperto de mão em sua coxa e levantou os olhos do copo de chopp. Tentou participar da conversa, riu da piada de um dos amigos. A mulher deitou o rosto em seu ombro. Fernando apertou a mão dela, os olhos se desviaram de novo para a mesa em frente.
Ele a vira assim que se sentara à mesa: morena, cabelos pretos cortados rente à orelha, deixando o longo pescoço à mostra. Ela estava sentada com amigas duas mesas adiante. Observando-a melhor, reparou que os cabelos eram pintados. Ela acabara de levar uma taça de vinho aos lábios e o vermelho contrastou com a pele clara. Fernando desviava os olhos, voltava a olhar, a mulher estranha sempre com a taça nos lábios, suas faces ganhando um tom afogueado. Enquanto brincava com o dedo no copo, Fernando passou a imaginar o vinho dançando na boca daquela mulher desconhecida.
A estranha passou a provocá-lo. Ela girava a taça na mão, o vinho circulando no interior. Aproximava a taça do nariz, tomava um gole devagar, olhos fechados. Abria o olhar na direção de Fernando, ficando nele sem pudor até o vinho descer pela garganta. Tudo isso acontecia em poucos e discretos segundos, como se, experiente, ela calculasse o tempo exato para a mulher de Fernando não perceber as insinuações. Às vezes, a estranha estremecia, um arrepio, como se a brisa de maio que entrava pela janela soubesse exatamente quando atingir aquele pescoço atrevidamente nu: no momento em que o líquido quente e seco passasse pela garganta.
Fernando disse algo no ouvido da esposa e caminhou em direção ao banheiro. Passou pela mesa da estranha e quase sentiu o cheiro de álcool e pele. Saiu do banheiro. Caminhava pelo estreito corredor entre as mesas quando deu de cara com ela. Pararam a poucos centímetros de distância, se olharam apenas o tempo certo para decidir como sairiam daquela situação. Ele se pôs de lado com uma leve reverência. A estranha entrou no banheiro.
A mulher ria alto dentro do carro, lembrando-se de casos dos amigos. Fernando não se importou com as risadas. Dirigia devagar, concentrado em cada movimento do carro para compensar a irresponsável atitude de dirigir após ter bebido. Em casa, a mulher se livrou rapidamente das roupas e se deitou, dormindo em seguida. No banheiro, Fernando tirou do bolso da calça o guardanapo de papel que a estranha colocara em sua mão naquele breve instante em que ficaram de frente para o outro: Camila.
O mesmo guardanapo que ele segurou durante muitas noites nestes dois anos. Sentado em frente ao computador, passeando pela Internet, ele abria seu pequeno bloco de anotações e tirava o guardanapo de papel. Já nem precisava mais dele, há muito decorara aquele número de celular. Mas acabava por esconder o papel novamente, colocando-o cuidadosamente no meio das páginas, sem amassá-lo.
Camila tomou outro gole do vinho. Ela estava diferente: cabelos ruivos quase chegando nos ombros. Assim que ela passou pela porta, Fernando pensou “talvez nem seja a mesma mulher”. Ele tivera que se explicar no telefone, contar em detalhes o encontro na pizzaria dois anos antes, o impasse na porta do banheiro, o guardanapo de papel. “Ah, sei. Claro, a gente pode se encontrar”.
Fernando passou os dedos entre seus cabelos, tocou de leve a pele do pescoço. Ela encolheu os ombros, pressionando sua mão com a nuca. A garrafa de vinho já estava quase pela metade e ele não sabia ainda o que fazer.
Sabia apenas que estava agora com uma estranha de cabelos ora ruivos ora pretos chamada Camila. Quando abrira a porta do apartamento, não a reconheceu. Ele a lembrava de cabelos curtos, cortados rente às orelhas, deixando à mostra a pele clara do longo pescoço. Durante dois anos, olhando aquele guardanapo de papel, Fernando a imaginou de todas as formas. E agora, buscando com os lábios o pescoço encoberto pelos cabelos, ele sentia um estranho e enjoativo gosto de vinho.
A própria Ana Maria Bahiana diz que o livro nasceu do encontro com pessoas de todo o país, frequentadores de seu curso Como ver um filme. A intenção das palestras “é formar plateias informadas, críticas, mais bem-habilitadas a compreender o que veem e a escolher do que gostam.”
Neste sentido, o livro funciona como uma espécie de manual, abordando em pequenos capítulos, muitas vezes em tópicos, o processo de construção de um filme. A autora desenvolve fases como a apresentação da ideia a um produtor, o desenvolvimento do roteiro, escolha do diretor, questões estéticas, pré-produção, filmagem e pós-produção.
No entanto, o melhor do livro são as considerações de Ana Maria Bahiana a respeito do estilo, do gênero cinematográfico. Explorando sua vasta cultura cinematográfica, principalmente do cinema americano, a jornalista passa pelos principais gêneros e subgêneros, destacando as características do estilo e exemplificando com uma série de filmes.
“Cinema é uma arte viva – tudo nele tem um claro ciclo natural – e, como ele, seus gêneros. Temas e estilos que rapidamente encontram eco junto ao público logo se tornam ‘gêneros’ menores no espaço aproximado de uma década. Seus elementos principais passam a ser copiados, reinterpretados, respondidos por outras visões, outros realizadores. A certa altura da repetição, o gênero se cristaliza, torna-se plenamente um clichê, pronto para ser criticado, destroçado, ironizado, satirizado e, eventualmente, esquecido. Mas nada permanece morto durante muito tempo neste ecossistema – tudo o que foi clássico vinte anos atrás pode ser novidade de novo, resgatado e reinterpretado por um novo olhar.”
Como manual, o livro apresenta passo a passo questões importantes para conhecer e entender os processos da construção de um filme. Como referência, lista uma série de filmes e suas principais características de técnica e estilo.
Como ver um filme. Ana Maria Bahiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
Quando criança, nunca dei tiro de chumbinho em gatos. O máximo que fiz, por curiosidade, foi segurar um felino de cabeça para baixo, a três palmos do chão, para ver se caía em pé. Sempre respeitei os bichanos. Adolescente, conheci o Rio de Janeiro. Nunca vou me esquecer do Pão de Açúcar, das argentinas na praia, do gato.
Minha tia morava em Ramos, uma hora de ônibus até as praias de Copacabana e Ipanema. De dia, praia, à noite, por prudência e idade, conversa na porta da rua. Meus primos tinham hábitos suburbanos. Frequentavam a quadra do colégio no sábado, ouviam jogo do Flamengo no domingo à tarde, jogavam baralho até tarde da noite. E tinham um gato. Gato errante de muros e lamentos. Desaparecia toda noite.
Casa pequena, dois quartos, eu dormia no chão da sala. Era casa geminada, mofo nas paredes, tacos soltos, alguns podres. Naquela noite, fui dormir cedo, cansado da praia. Estendi o colchão no canto, encostado na parede. Abri os olhos de madrugada. A cerca de 20 centímetros do meu rosto, o gato. Sentado no chão da sala, a elegância dos felinos, boca fechada, bigodes equilibrando o rosto numa estética perfeita, pelos limpos e brilhantes, olhos parados nos meus. Fechei os olhos, abri. O gato continuava na mesma posição, como escultura de olhos vivos. Virei para a parede e demorei a adormecer, sabia que ele ainda estava lá, observando. Durante todas as outras noites dormi virado para a parede, rosto colado no mofo.
Depois desta noite, não sei se por acaso ou cisma, os gatos sempre procuram meu olhar. À noite, dirigindo, quando o farol bate num felino, naquele breve instante em que ele pára, calcula o risco do atropelamento e depois desaparece, meu olhar se encontra com o dele. Não, esta história não vai chegar a animais pretos na encruzilhada ou a Edgar Allan Poe. Nada de bruxos, nada de reencarnações. É uma história de amantes como outra qualquer. A minha namorada tinha um gato.
Conheci Mércia em um bar de jornalistas. Próximo à redação do jornal, o bar ficava aberto pela madrugada, esperando os notívagos. Os jornalistas chegavam um a um, alguns eufóricos pelas belas reportagens, outros frustrados pelos cortes do editor, outros sonhando mais alto do que meras resenhas culturais, como Mércia. Ela trabalhava no caderno 2, passava a noite conversando sobre as matérias que fizera e as que não fizera. Quando conversava sobre contos policiais, seus olhos, bem, num desses olhares… terminamos a noite em seu apartamento.
Eu o enxerguei assim que ela abriu a porta: Philip, o gato. Enrodilhado no sofá da sala, levantou a cabeça, seus olhos fixos em mim. Passou a ser rotina. Duas ou três vezes por semana, do bar direto para o apartamento. Dormíamos até tarde, dez, onze da manhã, mas era durante a madrugada que os temores me assaltavam. O gato, em algum canto da casa, eu sabia, espreitava. Meu olhar, vez por outra, cruzava com o dele na porta do quarto.
Naquela noite, quando entramos, eu não vi Philip. Estava cansado, fui direto para o quarto. Adormeci. Acordei perto das cinco da manhã, uma sensação de que estava sendo observado. Pressenti um vulto se esgueirando na porta do quarto. Olhei em volta, a luz fraca do abajur projetou sombra na parede, felinamente rápida. Pulei da cama, Mércia se assustou. Suor começou a escorrer pelo meu rosto, ela perguntou se eu estava passando mal. “Preciso de um banho.”
Virei o rosto para o chuveiro, deixei a água quente bater em meu rosto por longo tempo, aliviando meus pensamentos. Quando entrei no quarto, Mércia estava sentada na beira da cama, minha camisa nas mãos, olhar desolado. “Você não vai acreditar.” Ela abriu os braços e estendeu a camisa de malha. Três longos cortes paralelos, começando perto da gola, desciam até o fim da camisa, terminando pouco antes da barra. Perfeitos, descendo em diagonal, como três garras rasgando meu peito.
Mércia saiu gritando por Philip, fiquei com a camisa nas mãos, sentindo os cortes. Peguei uma camisa qualquer no guarda-roupa, vesti as roupas apressado sem dizer nada. Na porta, beijei Mércia pouco menos demorado, os olhos tentando encontrar o gato atrás da amante. Desci as escadas, abri o portão da entrada, olhei para cima. Mércia estava na janela, como sempre. Mas eu só enxergava o olhar de Philip, em algum canto da casa.
August Brill, 72 anos, é um famoso crítico literário norte-americano. Após sofrer um acidente de carro, vai morar com a filha divorciada. Katya, sua jovem neta, também vai morar com eles após a morte do namorado na guerra do Iraque. Abalada, ela abandona o curso de cinema e se retrai em casa em longas sessões de filmes ao lado do avô. Assistem clássicos um atrás do outro e depois discutem cenas, sequências, sensações provocadas pelos filmes.
A trama de Homem no escuro, de Paul Auster, não se limita a essa resenha. Há uma história dentro da história sobre uma nova guerra de secessão nos Estados Unidos; as lembranças de August Brill ao lado da esposa Sonia tomam boa parte do livro. Mas são as poucas análises dos filmes compartilhados por avô e neta que tornam esse livro fascinante. A partir de obras como Ladrões de bicicleta, eles elaboram uma bela teoria sobre “objetos inanimados como formas de expressar emoções humanas.”
Pensando sobre isso, em uma noite de insônia, August Brill faz uma análise emocionante sobre o filme Era Uma Vez em Tóquio (1953) do cineasta japonês Yasujiro Ozu. No filme, a nora vai visitar o sogro após a morte da esposa dele. Ela recebe do sogro um relógio de presente. Ela agradece mas desaba. A seguir, a análise de August Brill/Paul Auster sobre as emoções humanas a partir deste relógio.
“Enquanto observa Noriko chorar, ele então faz uma declaração simples, pronuncia suas palavras de um modo tão direto, tão desprovido de sentimentalismo, que faz a moça vir abaixo, num novo ataque de soluços – soluços longos e lancinantes, um lamento de angústia tão fundo e doloroso que é como se aquilo que ela tem de mais profundo em sua pessoa se rompesse e abrisse.”
“Quero que você seja feliz, diz o velho.”
“Uma frase curta, e Noriko se desmancha, esmagada pelo peso da sua própria vida. Eu quero ser feliz. Enquanto ela continua chorando, o sogro faz mais um comentário, antes de a cena terminar. É estranho, diz ele, quase sem acreditar. Nós tivemos filhos, mas foi você quem fez mais por nós.”
(…)
“Alguns momentos depois disso, estamos dentro de um dos vagões. Noriko está sentada sozinha, olha para o vazio com um ar inexpressivo, sua mente longe dali. Passam-se vários momentos, e então ela ergue o relógio da sogra, que está no seu colo. Abre a tampa de metal, e subitamente ouvimos o estalo do ponteiro de segundos que avança no mostrador. Noriko continua a examinar o relógio, a expressão em seu rosto ao mesmo tempo triste e contemplativa, e, quando olhamos para ela com o relógio na palma da mão, sentimos que estamos olhando o tempo em si mesmo, o tempo que avança ligeiro, enquanto o trem também avança ligeiro e nos empurra para a frente, para dentro da vida, e de mais vida, mas também para o tempo passado, o passado da sogra morta, o passado de Noriko, o passado que vive no presente, o passado que levamos conosco para o futuro.”
“O apito estridente de um trem ressoa em nossos ouvidos, um barulho cruel e pungente. A vida é frustrante, não é?”
A freira debruçou-se sobre os meus ombros, olhou as letras no papel e me ordenou que repetisse a lição: a s d f g, a s d f g. Na nossa simplificação, não sabíamos nem mesmo o nome correto da escola. A chamávamos de Cursinho das Freiras. Ficava na Rua das Freiras, fácil de falar como a Rua de Baixo e a Rua de Cima.
Na década de 70, o trágico desmoronamento da construção da Gameleira soterrou e matou diversos operários na hora do almoço. A construção foi abandonada, ficaram as ruínas e um gigantesco terreno vazio, plano – onde hoje funciona o Expominas. Improvisamos ali um campo de futebol. Terra batida, pedras no lugar das traves, linhas imaginárias marcando as saídas do campo. Nas tardes de sábado, nossa turma se reunia depois do almoço, uns convidando os outros: “Vamos jogar bola no cemitério.” Tudo muito simples para mentes ainda desprovidas de dor e sofrimento.
Na adolescência, já sabendo da necessidade de trabalhar cedo, me matriculei no curso de datilografia das freiras. Passava uma hora por dia dedilhando as teclas, dedo a dedo, letra a letra, até decorar a sequência correta: a s d f g, ç l k j h. Por conta dessa persistência e do fascínio de ver as palavras se formando a tinta, virei exímio datilógrafo. Quando comecei a trabalhar de office-boy, contei nota a nota o primeiro salário, descontei o dinheiro da condução e gastei todo o resto na compra de uma máquina de escrever portátil, Olivetti Lettera 35, de metal, cinza, fita metade preta metade vermelha para os grifos.
Abandonei o cursinho e continuei em casa o treinamento diário. Saía do trabalho, ia para o colégio noturno e depois das aulas gastava meia hora na mesa da sala de jantar, batendo a máquina, como a mãe costumava dizer. Às vezes, o barulho acordava a mãe, ela levantava-se, me perguntava se eu tinha jantado e emendava, “O que você está fazendo?” “Escrevendo”, era a invariável resposta. Escrevendo trabalhos de escola, fui dos primeiros da classe a entregar trabalhos datilografados, impecavelmente corrigidos, escrevendo arremedos de contos, crônicas, qualquer coisa que se assemelhasse a um texto. Escrevendo poemas e mais poemas que me ajudaram na difícil arte de conquistar.
Era a época das discotecas, das festinhas de bairro, cada fim de semana em uma casa diferente. Meninos e meninas chegavam com LPs, compactos, cassetes, o som 3 em 1 no volume máximo. Todo mundo dançando feito John Travolta no filme Os embalos de sábado à noite. Eu não dançava. Ficava encostado na parede da sala. Meus olhos sempre encontravam os olhos de uma menina, mas até me decidir ela tinha sumido, sozinha ou com alguém mais despojado. Restava a máquina de escrever à noite, a mãe assustada pela hora daquele negócio batendo.
Quando o tempo dava uma oportunidade ao flerte, bem lento no meu caso, ou seja, quando a menina se permitia a olhares furtivos durante dias – em alguns casos meses – eu descobri um jeito. Entregava um pedaço de papel dobrado dentro de um livro, no caderno da escola, ou pedia à minha irmã para se fazer de correio. Depois eu telefonava, convidando para um domingo à tarde no cinema. Sentados, nossos braços roçavam, dedos acariciavam o dorso da mão até se entrelaçar. O filme ficava esquecido na tela a cada beijo.
Nessas noites a mãe ouvia a máquina de escrever batendo mais forte.