• Tortura e clonagem em Enterprise

    Enterprise é a quinta série de televisão baseada em Jornada nas Estrelas (Star Trek,1966/1968) criada por Gene Roddenberry. A trama da terceira temporada é baseada na procura, pela nave estelar Enterprise, da poderosa arma que está sendo construída pelos Xindis. O objetivo da arma é destruir o planeta Terra com um único disparo.

    No segundo episódio, o Capitão Jonathan Archer (Scott Bakula) captura um Xindi e como não consegue as informações de que precisa para localizar o local em que a arma está sendo construída, decide apelar para meios mais convincentes. O prisioneiro é colocado em uma câmera de descompressão e o próprio Capitão, sob o olhar atônito de parte da tripulação, aumenta gradativamente o nível de ar dentro da câmera, torturando o prisioneiro até conseguir a informação. O pretexto é: “preciso dessa informação para salvar a Terra da destruição total”.

    Na franquia Star Trek, Capitães e suas tripulações seguem uma norma: o respeito à vida inteligente. Exploradores espaciais, e não conquistadores, eles são regidos pela Primeira Diretriz: eles não podem interferir no modo de vida e na cultura dos mundos que exploram. Devem sacrificar sua própria vida, se for preciso, em respeito à essa lei.

    No episódio Relatório de Danos, o Capitão Jonathan Archer volta a se defrontar com a ética. A Enterprise está seriamente danificada após uma batalha estelar. Os tripulantes precisam comparecer a um encontro em três dias para tentar parar a construção da arma mortal e encontram uma nave pacífica no caminho. Os Illyrianos têm a peça, reator de dobra, de que a Enterprise precisa para chegar a tempo ao encontro, mas se recusam a cedê-la. A decisão do Capitão Archer: abordar a nave “pacífica” dos Illyrianos e roubar a peça, deixando-os à deriva no espaço. Sem o reator de dobra, eles gastariam três anos para chegar em seu planeta natal e podem não sobreviver. Para compensar o crime, o Capitão da Enterprise deixa com eles suprimentos necessários para os três anos de viagem. Os tripulantes da Enterprise, liderados pessoalmente pelo capitão, se transformam em piratas do espaço.

    Em Semelhança, a clonagem de ser humano é sugerida pelo Dr. Phlox  (John Billingsley), médico de bordo que em episódios anteriores se destacara, arriscando a própria vida, pela defesa da ética médica. O engenheiro-chefe da nave está entre a vida e a morte. A única solução, segundo o médico, é cloná-lo, usando célula que o médico encontrara em suas pesquisas em planeta alienígena. A célula tem a capacidade de “copiar” exatamente outro ser vivo, mantendo todas as suas características, inclusive sentimentos e lembranças. O problema é que o clone nasce, cresce e morre num espaço de sete dias (imagina-se que o médico, secretamente, já fizera essa experiência, devido ao nível de informações que tem).

    A ideia do médico é retirar do clone a célula que o engenheiro-chefe precisa para sobreviver. O Capitão Jonathan Archer autoriza o procedimento. O pretexto: “sem o meu engenheiro-chefe, a missão da Enterprise de salvar a terra está fadada ao fracasso”. No final, o próprio clone se sacrifica por essa causa.

    Enterprise foi exibida nos Estados Unidos de 26 de setembro de 2001 a 2 de fevereiro de 2005, num total de 98 episódios. A produção e exibição da série coincide com os ataques aos Estados Unidos de 11 de setembro de 2001. É fácil identificar, principalmente na terceira temporada, referências ao terrorismo. Um dos inimigos dos humanos é a raça Suliban, referência ao Taliban. A nave estelar parte em uma cruzada solitária contra os inimigos numa galáxia desconhecida e perigosa, chamada de Expansão, povoada por seres híbridos, fenômenos classificados como anomalias e míticos viajantes espaciais que adoram “os construtores das esferas”.

    No episódio Reino Escolhido, o Capitão Archer leva para bordo grupo de religiosos cuja nave estava à deriva no espaço. Pregando paz e amor, os religiosos tomam o comando da Enterprise com uma ameaça: eles trazem embutidos nos corpos explosivos capazes de destruir toda a nave. Como demonstração, um dos religiosos explode a bomba interior em um compartimento, matando uma tripulante. Antes do suicídio assassino, ora.

    A história de Enterprise se passa cem anos antes do aparecimento do Capitão Kirk, Spock, Mccoy e companhia. A série conta o início da saga. Os humanos acabaram de inventar a dobra estelar, a nave é a primeira a deixar a galáxia em busca de novos mundos, novas civilizações. A Federação Unida de Planetas ainda não existe, os conceitos da Primeira Diretriz são desenvolvidos ao longo da série, exatamente pelos confrontos éticos com os quais o Capitão Jonathan Archer e sua tripulação se defrontam.

    Assim os produtores e roteiristas abriram a possibilidade de explorar temáticas pouco trabalhadas nas demais séries da franquia. As tramas são recheadas de ação, batalhas estelares, tiroteios, bombardeios a planetas, trocas de torpedos fotônicos, mortes violentas de membros da tripulação ou de seus inimigos, inúmeras cenas de torturas – o Capitão Archer ou membros da sua tripulação são torturados em vários episódios. Não é de estranhar que a série tenha recebido protestos generalizados dos fãs de Jornadas nas Estrelas e durado apenas quatro temporadas. Afinal, o universo criado por Gene Roddenberry era regido pela paz, não pela guerra.

  • Aula de cinema

    O livro Roteiro de cinema, de Michel Chion, foi publicado na década de 80 se tornando, de imediato, clássico na literatura de roteiros para cinema. A edição do livro surgiu a partir da proposta da criação de um curso de roteiro. Na apresentação da edição brasileira, o autor adverte: “Muitos dizem que roteiro não se ensina, e têm razão… em princípio. Os bons roteiros não surgem por geração espontânea: em geral, nascem de certo domínio do ofício, ou da intuição de certas leis, que o roteirista decide respeitar ou ignorar. Esse ofício, essa intuição, adquirem-se em grande parte com a experiência e um pouco através do estudo.”

    Visando contribuir para esse estudo, Michel Chion divide o seu livro em três partes. Na primeira, analisa roteiros de obras-primas do cinema, como Uma aventura na Martinica, O testamento do Doutor Mabuse e Sansho Dayu. A seguir, segue o padrão dos manuais de roteiros, descrevendo as técnicas: criação de personagens, procedimentos de narração e um interessante capítulo sobre “os erros de roteiro (para melhor cometê-los)”. A terceira parte apresenta a estrutura do roteiro: ideia, sinopse, tratamento, continuidade dialogada, decupagem técnica e “story-board”.

    Livro primoroso, Michel Chion vai além de descrição de técnicas de roteirização. As análises do autor enriquecem, orientando o trabalho de roteiristas no uso da linguagem de cinema, na construção de cenários, na composição de personagem, na busca de soluções dramáticas, na inserção de pistas para o espectador, nas funções do diálogo, na construção cênica e dramática usando acessórios, no uso dos clichês, no domínio do tempo narrativo.

    A advertência de Michel Chion na apresentação é válida, talvez roteiro não se ensine, no entanto, seu livro é uma verdadeira aula de cinema.

    O roteiro de cinema. Michel Chion. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

  • Zé do Muro

    por Robertson Mayrink

    Bate você…. você.” Demorei um pouco a entender os gritos do técnico no meio da confusão de jogadores cercando o juiz na grande área. Batata já estava com a bola nas mãos, próximo à marca do pênalti. Zé do Muro continuava gritando: “Bate você… você.”, o dedo apontando para mim.

    Acredito que nenhum dos jogadores do meu time, todos adolescentes entre 13 e 16 anos, sabia o nome depois de José, mas o bairro inteiro conhecia a origem do apelido. A rotina de Zé do Muro era simples: saía de casa por volta das três da tarde, descia a rua até o bar e bebia, com amigos ou sozinho, até o momento em que o dono do bar começava a baixar as portas. Não é difícil imaginar a dificuldade em andar rua acima após essa longa jornada etílica. Ele andava dez ou quinze passos e apoiava o ombro no muro, esperava um pouco, andava mais alguns passos, encostava-se no muro novamente. Virou Zé do Muro.

    Zé do Muro só era visto sóbrio duas vezes por semana: na sexta-feira, dia de treino do time de meninos da rua, e no jogo de domingo. As mãos trêmulas segurando o cigarro, gritando enraivecido por erros fundamentais como passes mal trocados. Depois dos treinos, a gente se sentava, Zé do Muro ao centro, a noite tomando conta do campo. Em cinco minutos de preleção, ele versava sobre preceitos que, ensinava, todos deveriam respeitar no futebol. Nunca chute a bola com o bico da chuteira; dribles só têm sentido na direção do gol, o resto é firula, provocação; não existe idiotice maior do que cruzar a bola da intermediária para a grande área, pois os zagueiros estão sempre de frente…

    Eram 40 minutos do segundo tempo. O placar, 3 x 2 para o time adversário. Decisão do torneio Bola de Ouro, patrocinado pelo Bar do Careca. O empate levaria o jogo para a prorrogação. Batata já com a bola debaixo do braço. Zé do Muro continuou gritando até deixar claro a ordem: eu fizera os dois gols do meu time e deveria bater o pênalti. Peguei a bola das mãos de Batata.

    O morro atrás do gol estava cheio de torcedores: pais, mães, irmãos, parentes, vizinhos – manhãs de domingo de futebol. Respirei fundo, olhar fixo nos olhos do goleiro. Corri e um segundo antes desviei os olhos para a bola.

    Naquela noite, caminhei sozinho pelo bairro. Andei por cerca de uma hora, as ruas quase desertas, passando pelos prédios que se erguiam na explosão imobiliária vertical daqueles anos 70. Ao voltar, quando virei a esquina da minha rua, vi um vulto encostado no muro a poucos metros de distância. Decidi atravessar para o outro lado, pensei, no estado em que está ele não vai me ver. Mas Zé do Muro começou a andar em passos acelerados, firmes, em poucos segundos estava na minha frente. Ele despenteou meus cabelos com a mão, sua voz soou clara e forte: “Da próxima vez, olhe firme nos olhos do goleiro.”

    A seguir, voltou a caminhar. Quando abri o portão da minha casa, olhei para trás. Quase no fim da rua, iluminado pela luz do poste, Zé encostado no muro. Ele andou mais alguns passos, apoiou o ombro novamente no muro. Assim, de muro em muro até virar a esquina.

  • O desafio do tempo e do espaço

    Filmes rodados em ambiente único, com único personagem, apresentam um grande desafio: controlar o ritmo, o tempo narrativo.

    “Assim parece indiscutível que o cinema é primeiramente uma arte do tempo, já que é esse o dado mais imediatamente perceptível em todo esforço de apreensão do filme. Isso se deve, sem dúvida, ao fato de que o espaço é objeto de percepção, enquanto o tempo é objeto de intuição. O espaço é um quadro fixo, rígido e objetivo, independente de nós, e nos encontramos no espaço (representação) do filme da mesma forma que nos encontramos no espaço real. Ao contrário, se o tempo é também um quadro fixo, rígido e objetivo (implica um sistema de referência social: horas, dias, meses, anos), apenas a duração possui um valor estético, e embora estejamos no tempo, a duração, propriamente, está em nós, fluída, contráctil e subjetiva.” – Marcel Martin.

    Em 127 horas (127 hours, EUA, 2010) de Danny Boyle, a ação transcorre em um único espaço: no cânion Blue John, em Utah. Aron Ralston (James Franco) é ciclista/alpinista cujo divertimento, desde criança, é escalar as rochosas. Na primeira parte do filme, pedala solitário pelo deserto de pedras, encontra uma dupla de amigas, se divertem momentaneamente em um lago de caverna, se despedem e Aron parte em sua jornada rumo ao imprevisível. Para o espectador não há mistério: sabe-se que Aron vai ficar preso pelo braço na confluência de duas rochas e o desfecho da história (real, baseada na história do alpinista) é um lento e inacreditável processo de auto-imolação.

    O desafio do diretor Boyle é controlar o tempo narrativo a partir do momento em que o filme se torna único: Aron em meio às rochas, com sua mochila e objetos pessoais.

    “Podemos afirmar, portanto, que o universo fílmico é um complexo espaço-tempo (ou ainda, um continuum espaço-duração) em que a natureza do espaço não é fundamentalmente modificada (mas apenas nossas possibilidades de experimentá-lo e percorrê-lo), ao passo que a duração desfruta aí de uma liberdade e uma fluidez absolutas, podendo seu fluxo ser acelerado, retardado, invertido, interrompido ou simplesmente ignorado.” – Marcel Martin.

    Os recursos utilizados por Danny Boyle para acelerar/retardar o tempo narrativo e prender o interesse do espectador durante quase uma hora, tempo do acidente de Aron até o clímax, resvalam para o banalismo das imagens cinematográficas contemporâneas: close-ups estourados em objetos que se fundem em pretensas metáforas, nuvens aceleradas no céu inclemente, filmadora portátil narrando no lugar da câmera de cinema, a tela se dividindo em fragmentos de imagens, passado e futuro se confundindo em lembranças e alucinações do personagem.

    “É o que ocorre, por exemplo, quando o filme está centrado num personagem que evoca lembranças: ao invés de desenrolar a ação fazendo com que o herói intervenha como um de seus elementos, é mais adequado concentrar nele o drama, consistindo a maior parte do filme na materialização de sua lembrança. ” – Marcel Martin.

    A tentativa de Boyle em modernizar estes recursos clássicos do cinema fazem com que, em determinados momentos ,127 horas se assemelhe às experimentações alucinógenas de uma ilha de edição.

    A experimentação de Rodrigo Cortés em Enterrado vivo (Buried, Esp/EUA/França, 2010) é mais radical e interessante. Bastam apenas um toque de celular e o acendimento de um isqueiro para o espectador entender o espaço e tempo narrativos do filme: Paul Conroy (Ryan Reynolds) está enterrado vivo em um caixão e resta-lhe o tempo de oxigênio desta situação desesperadora, claustrofóbica. A câmera é limitada pelo espaço retangular, a fotografia pelas luzes do celular e do isqueiro, a montagem pela ausência de alternativas espaço/temporais. Assumir este espaço limitador é exatamente o ponto fascinante de Enterrado vivo: a narrativa se desenvolve a partir da utilização do som, dos diálogos que Paul trava com seu sequestrador, sua esposa e com representantes do governo americano no Iraque, sua única possibilidade de salvamento.

    O filme ganha contorno cada vez mais angustiante, pois a imaginação do espectador, presa durante 90 minutos à imagem torturada de Paul, flui para fora do caixão. O diretor deixa por conta do espectador a montagem do espaço/tempo exterior, construindo os personagens, seus ambientes e o tempo contrastante. Cabe ao espectador imaginar os minutos pelos quais Paul espera uma nova ligação, preso à imagem do personagem que sabe-se enterrado vivo, mas sua imaginação fluindo para os personagens lá fora: o frio e cruel sequestrador, o agente ineficiente, a mulher desesperada. A imagem presa em Paul durante todo o filme liberta a imaginação do espectador, fazendo-o participar do jogo narrativo. Isto é cinema.

    Referência: A linguagem cinematográfica. Marcel Martin. São Paulo: Brasiliense, 2007